"A BICICLETA AMARELA"
Sim, ela era amarela, amarela com detalhes pretos, enfim, meu tão sonhado presente de 14 anos, amarela feito flor-sol, linda.
O leitor menos paciente vai gritar : “Ora, dane-se você e sua bicicleta amarela” mas... cabe dizer que além de amarela, tinha detalhes pretos.
É impressionante o que vai pela mente de um jovem garoto ao pedal, sensação de poder, liberdade, para um pré-adolescente de 14 anos, é muita coisa.
Uma bela tarde, de um belo dia, de um belo mês, de um belo ano, lá estava eu, sentado na varanda da nossa (não tão bela) casa, no bairro do acampamento, área exclusivamente rural, observava as aves fechando o expediente e voando aos bandos para o abrigo seguro na copa de uma grande figueira plantada no fundo de nosso quintal, sinceramente, era um espetáculo bonito de ver, então pus-me a meditar sobre como podem ser tristes os fins de tarde, principalmente em uma área rural, longe do restante da civilização, foi quando me surgiu, no íntimo, a seguinte indagação “A tristeza está nas tardes do sertão, ou simplesmente nos olhos e coração de quem vê ?”, conclui o raciocínio dizendo que tais conjecturas me eram de difícil compreensão e acabei por responder à mim mesmo “um pouco das duas coisas”.
O barulho dos pratos e panelas na cozinha denunciavam que minha amada mãe acabara de preparar a refeição, talvez hoje jantássemos frango assado, ovo frito ou, quem sabe, apenas legumes e verduras, não me importava muito, meus sentidos estavam voltados para o fim do dia, ao seu movimento ensaiado e contínuo, e tornei a pensar “como são tristes os fins de tarde”.
Entre os sons do gado de dos pássaros, um som artificial e conhecido dava fim à monotonia, o barulho do motor de um trator e, a não ser que estivesse redondamente enganado, meu pai vinha voltando de seu compromisso na cidade, antes de sair ele e minha mãe haviam conversado e pude captar pequenos retalhos do diálogo :
- Vai a cidade hoje ? – ouvi-a perguntar
- Pretendo
- Se for, passe no mercado, no.... compre....
- Com certeza, vou comprar, realmente, já está na hora, apesar de que, na minha época de juventude, fui ganhar minha primeira com 20 anos de idade – disse meu pai
- Os tempos mudam.
Ouvi meu pai sorrir.
Como o assunto “cidade”, momentaneamente, me era de pouco interesse não atendei mais profundamente ao diálogo travado, até porque, havia certa dissimulação entre ambos que, de forma alguma, tirou-me a atenção das bolinhas de gude com as quais continuava a brincar, certamente, o som do meu jogo solitário era mais digno de interesse que o dialogo de meus pais, ledo engano.
Enfim o som intensificou-se acusando a aproximação e, antes que me desse conta, meu pai estava lá, parado ao pé de mim.
O trator ainda ligado, meu pai descansou a mão sobre meus cabelos e me tirou do leve transe :
- Se fosse uma cobra, teria te picado – falou ele sorrindo
Apenas sorri, meio timidamente e disse :
- Mas, se o senhor fosse uma cobra, eu também seria, então, jamais me preocuparia.
Minha mãe, que estava na porta atrás de mim soltou uma sonora gargalhada e brincou :
- Quem está ensinando essas coisas pra esse menino danado ?
Todos rimos então.
Pai e mãe, ambos foram descarregar o trator, provavelmente a viagem havia ensejado uma visita à vendinha da cidade, e eu, não sem muita insistência, deixei-lhe esse encargo, ficando incumbido de entrar e terminar de arrumar a mesa do jantar.
Terminei por colocar o último prato sobre a mesa e ouvi o chamado de meus pais, logo pensei que estivessem arrependidos por recusarem minha ajuda e pretendessem se redimir.
Saí pela porta da sala e encontrei-os ambos parados, de pé, ao lado do trator mas, entre os dois sorridentes, uma fita vermelha com laçinho envolvia uma bicicleta amarela, que reluzia à luz do lampião pendurado na varanda, fiquei parado durante alguns segundos, até que meus pais, em uníssono, quebraram o silêncio :
- “FELIZ ANIVERSÁRIO” e desfizeram-se em aplausos.
Fiquei aturdido, desorientado, perdido, jamais me passara pela mente que hoje, justamente hoje, comemorava meu décimo quarto aniversário, um misto de sensações veio me invadir o coração, vontade de sorrir, de chorar, em minha mente brotava uma dúvida tão cruel quando à que diz respeito aos grandes mistérios do universo, essa dúvida consistia, basicamente, em saber quem deveria abraçar primeiro : minha mãe, meu pai ou minha bicicleta, minha primeira bicicleta.
Saí correndo, gritando, tropeçando, minha cabeça girava, cada passo uma eternidade, o tempo se arrastava em câmera lenta, se continuasse assim, talvez nunca chegasse a tocar meu presente de aniversário, enfim, cheguei junto deles e nos abraçamos todos, eu, minha mãe, meu pai e, é claro, minha bicicleta, minha.
O jantar aquela noite, confesso, fora mera obrigação, vinculada por meus pais à minha autorização para as primeiras pedaladas, não me perguntem o cardápio da noite do meu aniversário, não me recordo, exceto do pequeno bolo com uma única vela posta em cima do qual guardo doces lembranças, era de chocolate, com recheio de chocolate e cobertura de chocolate, enfim, era um bolo de chocolate, um refrigerante 600ml sabor maça refrescou nossas gargantas aquela noite e, vendo minha empolgação, minha mãe, hora e outra, disparava :
- Se não comer, não vai andar de bicicleta hoje.
Creio haverem sido falsas tais ameaças, ela jamais me privaria daquela felicidade, no fundo eu sabia disso mas, fiz o possível pra comer de tudo um pouco.
Ah, como eu queria que o tempo voasse, que 1 hora durasse apenas um segundo, infelizmente, não foi assim, durante aqueles curtos minutos, cada segundo representava 1 minuto e cada minuto 1 hora, e o tempo parecia querer parar, mas não parou.
Lá estava eu, todo garboso, sentado sobre minha linda bicicleta amarela, com meus pais parados a meu lado dizendo :
- Vamos, pedala, é fácil, você consegue.
E eu pedalei, durante uma fração de segundos mantive o equilíbrio, foi então que o mundo girou e lá estava eu, caído desajeitadamente, com a bicicleta por cima, então um súbito pensamento me ocorreu :
“ Isso é mais difícil do que parece”
Não era como andar a cavalo, até então não havia me atentado ao fato do cavalo ter quatro patas, contra apenas duas da bicicleta.
Meu pai veio em meu auxílio, senti o rosto arder de constrangimento, pensei que fosse ralhar comigo, criticar meu jeito desastrado de ser, criticar minha falta de zelo para com o presente que acabara de ganhar.
Todos os meus medos e dúvidas se dissiparam quando me pegou pelos braços, colocou-me de pé e disse :
- Fica tranqüilo, isso acontece, é assim mesmo.
Que alívio !
Nas tentativas seguintes meu pai segurou fortemente na parte traseira do banquinho e me conduziu habilmente por um longo trecho, quando eu ganhava equilíbrio ele soltava as mãos e eu continuava sozinho, apenas para cair logo mais à frente.
Caí uma, duas, três, quatro, cinco.... dez.. onze vezes, foi nesse ponto que parei de contar, mas não de cair.
Infelizmente era hora de dormir, relutei, tentei argumentar dizendo que, se tentasse apenas mais uma vez, haveria de conseguir, não obtive sucesso na empreitada, era hora de repousar.
Eles me abraçaram mais uma vez e desejaram feliz aniversário, disseram que o amor que me sentiam não poderia, jamais, ser completamente expressado por qualquer presente.
Fui para cama, a bicicleta, comigo no quarto, encostada a um canto, de modo que a pudesse ver, pudesse tocar, e foi assim, olhando na penumbra para o meu presente, que adormeci.
No outro dia, logo de madrugada, ainda deitado, com os olhos abertos, esperava qualquer movimento que indicasse o despertar de mais pais, antes de sair para o trabalho pretendia praticar um pouco e a ajuda de meu pai seria imprescindível e indispensável, me deixei ficar assim, contemplando a bicicleta enquanto o único som audível era o cantar dos galos e o som dos grilos, foi então que tudo mudou.
Um grito agudo, um som que jamais poderei esquecer, um som que ainda hoje, após tantos anos, permanece claramente gravado em minha mente, acima do som dos pássaros, do gado, foi um grito desesperado, assustador.
Não sei como aconteceu mas, de repente, estava parado ao lado da cama de meus pais, a cena chocou, minha mãe aos gritos, choros e soluços, segurava nos braços o corpo sem vida de meu querido pai.
O sol nasceu, triste e acanhado, não trouxe sua magia costumeira nem a alegria das manhãs, o mundo estava nublado, logo uma chuva fina e constante começou a cair lá fora, cá dentro, apenas os cochichos, choros e o arrastar ocasional de alguma cadeira.
Todos diziam :
- Foi um bom homem
- Foi um exemplo nessa terra
- Foi embora ainda tão jovem
Mas somente eu poderia dizer :
- Foi o melhor pai do mundo
E o disse, no silencio do meu coração amargurado, eu disse.
Continha as muitas lagrimas que insistiam em tentar escorrer por meu rosto abatido, recebia os abraços, balançava a cabeça mas, quase não chorei, pensava que aos olhos agora sem vida de meu pai, tal comportamento deixaria transparecer certa fragilidade feminina.
- Homens não choram – ele dizia.
No final da tarde, a tarde mais triste e melancólica de toda a minha vida, saí de casa acompanhando o cortejo, todos iam em silêncio, alguns talvez meditando na brevidade da vida, outros meditando nos compromissos a honrar, levantei os olhos, minha mãe parecia haver envelhecido vários anos, os olhos vidrados, o rosto molhado, a chuva insistia em continuar caindo.
Deitado eternamente em berço não tão esplendido, confesso, deixamos alguém querido, muitos dos presentes deixaram ali um bom amigo, um bom cliente mas, minha mãe deixou o marido, eu deixei o pai, o melhor pai do mundo, o meu pai.
Os dias transcorreram, em contraste com o desejo da longa noite após meu aniversário, ocasião em que pedia aos céus para que o tempo voasse, agora, no entanto, gostaria de voltar, e que cada segundo ao lado de meu pai durasse uma eternidade.
Sempre me disseram que, na maioria das vezes, só percebemos o real valor das coisas justamente quando as perdemos, pude comprovar essa afirmação da pior maneira possível, tempo, quem me dera tê-lo de volta, e com ele, meu pai.
Dias, semanas, meses, toda tarde sentava-me na varanda, apurava os ouvidos e tentava ouvir um som que me devolvesse àquela alegria de criança, tentava ouvir o som de um trator vermelho, velho e enferrujado, voltando para casa.
Os sons da natureza ficaram infinitamente mais tristes, o canto dos pássaros, o mugir do gado, o cacarejar das galinhas, tudo me remetia ao dia de meu aniversário de 14 anos, tudo, menos o barulho do trator chegando.
Minha cama coberta de pregos, olhos repletos de areia, coração cheio de tristeza, os soluços abafados de minha mãe nas madrugadas e minha bicicleta, que continuava exatamente no mesmo canto do quarto onde há havia deixado, desde aquele dia nenhuma pedalada sequer, nenhuma volta, a vontade de sair ao sabor do vento com minha bicicleta amarela estava enterrada, talvez, ao lado de meu pai.
- Você tem que andar na sua bicicleta nova, desse jeito, nunca vai aprender – disse minha mãe certa noite.
- Não consigo – foi a única resposta que me veio à boca.
Na tarde do dia seguinte, enquanto minha mãe preparava o jantar, enquanto as galinhas procuravam seus poleiros, quem olhasse iria ver, um garoto, parado no quintal de uma casa, no meio do nada, segurando uma bicicleta amarela, sem saber o que fazer.
Ao lado da casa havia uma estrada de terra, com uma pequena inclinação e grama nas margens, talvez devesse ir até ali, assim, poderia cair em um lugar mais confortável que o chão duro.
Agora via a estrada e, lá adiante, ainda um pedacinho do sol insistia em aparecer deixando o céu todo vermelho, sentei no banquinho da bicicleta e a imagem de meu pai me segurando dilacerou-me o peito, fiquei assim, sentado, olhando a estrada que seguia até lá adiante, minha mãe, agora recostada no umbral da porta da sala, olhava-me pensativa, pela distância que nos separava não ouso afirmar, mas penso ter visto o reflexo de uma grossa lágrima, a lhe descer pela face.
Então, não sei se por algum desvario da mente ou alguma outra coisa qualquer, senti a mão de meu pai segurando o banquinho da bicicleta, talvez também pelo mesmo desvario pensei ter ouvido, bem sussurrado, algo como :
- Vamos filho, você consegue, eu te seguro.
E eu pedalei, pedalei pra fugir da dor, da saudade, das lembranças tristes, a bicicleta amarela como a compreender minha agonia não pendeu para os lados, seguiu firme, em frente, sem titubear, foi seguindo a estrada, um pontinho amarelo solitário correndo, correndo, correndo..., o vento esvoaçando meus cabelos, os pensamentos fixos no dia do meu aniversário, foi então que me dei conta que, além dos cabelos, eram minhas lágrimas que o vento fazia voar.
By : Rodrigo Figueira.
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